Emoções à flor
da pele
Ela faz aula de inglês, de balé e mora em Shoreditch. Tem um blog,
recentemente foi passar férias em Nova York e faz curso de tradução
na Westminster University. Além de tudo isso, é stripper em Londres
Yami
Trequesser
Ela faz aula de inglês, de balé e
mora em Shoreditch. Tem um blog chamado Naked
Emotions, recentemente
foi passar férias em Nova York
e uma vez por semana faz um curso de
tradução na Westminster
University. Além de tudo isso,
Maya, seu nome artístico, também
trabalha para um agência de strippers
em Londres.
OiLondres! - Como é ser uma stripper brasileira em Londres?
Maya - É um
trabalho razoavelmente bem remunerado
e que apesar de envolver nudez não
envolve nenhum contato físico
maior com o público - em outras
palavras, não tem nada a ver
com prostituição -
o que no Brasil a maioria das pessoas
acha difícil de acreditar.
Naked Emotions - August 15,
2004
Na sexta-feira trabalhei num pub bom, num dia bom, numa hora boa. O tipo de
lugar onde me sinto bem e à vontade: 3 meninas num turno de 3 horas,
clientela bem-comportada. Lugar simples mas limpo e organizado, gerência
justa e amigável, nada de danças privadas e striptease restrito
ao palco (em alguns pubs não há palco e a gente dança
no meio da galera), que tem dois poles e tem iluminação cênica
apropriada. Em outras palavras, striptease mais com a idéia de show
artístico.
Uma das meninas do turno era uma australiana que não era boa no pole
não: a desgraçada era FANTÁSTICA, simplesmente uma estrela:
magra e atlética, longos cabelos louros, ela abalava total no palco
com seus movimentos acrobáticos e cheios de técnica. Um privilégio
ver uma criatura daquelas em cena. Ela está só há uma
semana em Londres, vinda de Paris, dando um tempo antes de ir fazer uma apresentação
como convidada especial num evento grande e importante em Oslo e depois disso
fazer um curso em Los Angeles. Talvez volte aqui para passar um tempo, onde
dará aulas. Um grande presente poder trabalhar com alguém assim.
Claro que não é nada fácil entrar em cena depois que outra
fez o inimaginável em termos técnicos, mas sou da turma dos que
ficam felizes- não desanimados ou para baixo - de ter a chance de trampar
com quem é bem melhor do que eu. Só quando a gente vê o
quanto falta para ser realmente bom em algo é que aquele tesão
de se superar e de suar para melhorar.
OiLondres! - Nesses seus 4
anos em Londres, mudou alguma coisa,
na sua opinião, na forma como
as strippers brasileiras são
tratadas (pelos donos de boates,
pelos ingleses, pelos brasileiros
que moram aqui)?
Maya - Houve uma "invasão " de strippers brasileiras em Londres
nos últimos 4 ou 5 anos e hoje em dia a gente forma um grande grupo
nesse business. As opiniões por parte dos ingleses diferem; uns adoram
o nosso jeito caloroso, amigável, alegre e naturamente sensual de ser
e outros (especialmente outras strippers e alguns clientes) reclamam que as
brasileiras não falam inglês, são ignorantes e demasiadamente
ambiciosas.
Naked Emotions - May 23, 2004
Adoro dançar no pole, que é aquela barra de ferro vertical. É preciso
certa força nos braços e no abdomen e bastante resistência
muscular; ao final de um turno num pub onde o palco tenha um pole e onde se
dança várias vezes, saio exausta. Estou sempre treinando para
aprimorar meus movimentos e vez ou outra faço uma aula com alguém
que o domine mais que eu.
OiLondres! - Por que você decidiu ter um blog?
Maya - Morei 3 anos em Londres, de 1999 a 2001, depois voltei ao Brasil para
passar 1 ano, vivendo minha vidinha normal, trabalhando num emprego meio tedioso.
Foi nessa época que, com bastante tempo livre, comecei a navegar horas
e horas na Internet e descobri os blogs, que achei uma forma fantástica
de expressar opiniões e compartilhar experiências.
Fiquei com vontade de ter o meu próprio mas não sabia o que escrever;
quando decidi voltar para Londres e para minha vida de stripper, achei que
era uma boa desculpa para ter um, pois era o meu assunto secreto, do qual não
podia falar com as pessoas que me conheciam na minha vida real. O meu blog
preferido, aliás, é e continua sendo, o Stripped,
da Patricia, que era stripper em Nova York.
Naked Emotions - June 02,
2004
Voltei de um pub longe pra caramba. Nem estava na minha agenda, mas descolei
ontem esse trampo e dei uma interrompida nas minhas férias. Trabalhei
com uma sueca jovem e bonitinha, que dançava rápido músicas
dos anos 80 e 70. Ótimo gosto musical e roupas interressantes. Adoro
quando a menina colega de turno tem estilo. Nos strip pubs não há DJ
e nós mesmas escolhemos a música, ou tocando os nossos próprios
CDs ou então selecionando na jukebox (se o lugar tiver uma)
OiLondres! - É verdade
que o pessoal do mercado financeiro é o
que mais frequenta casas de striptease?
Maya - Seria um tanto exagerado dizer que eles são maioria, pois a cena
de striptease em Londres é enorme, abrangendo os lap dancing clubes
(lugares caros para um público mais de elite) e os strip pubs (lugares
mais democráticos e frequentados por todas as idades, raças e
classes sociais) espalhados por vários cantos da cidade e adjacências.
Mas se pode dizer que eles são um dos grupos que mais frequentam, especialmente
nos strip clubes e pubs do triângulo de Shoreditch, pela proximidade
com a City Londrina.
Naked Emotions - June 22,
2004
Verão, tempo de férias, que duram então uma eternidade.
O ano letivo acaba em meados de junho e as aulas só retomam no final
de setembro! Isso nos colleges e universidades; quem estuda só inglês
nas escolas para estrangeiros tem aula o ano inteiro e escolhe quando tira
férias. Ontem dei férias do curso de tradução e,
final da semana que vem, param as aulas de balé. Continuo só a
ir para as aulas de inglês, onde chego na metade final. O professor é até legal
mas sabe quando vc sente que já ultrapassou aquela etapa? Não
que não precise aprender mais, só que não ali.... Mas é a
questão do visto, que aliás estou em processo de renovação,
será o meu último (acho). Depois devo voltar definitivamente
ao Brasil, o que confesso, não me deixa no melhor dos ânimos,
não.
OiLondres! – Você tem
idéia de quantas meninas brasileiras
são strippers em Londres?
Maya - Não tenho como dizer um número exato, isso seria impossível
(pela enormidade desse business aqui), mas são muitas. E com mais chegando
a cada dia. Uma que descobriu e chamou ou trouxe a irmã, a prima, a
sobrinha, a amiga e por aí vai. Sou uma das poucas que não conhecia
ninguém que fazia antes de começar.
Naked Emotions - June 26, 2004
Happy birthday
Hoje é meu aniversário, mas stripper que se preza não
tira folga por conta disso não. De presente tenho que trabalhar à noite
no melhor pub da agência.
Tem menina que capitaliza total o dia, conta com antecedência aos clientes
fiéis, os intima a aparecer, numas de tentar faturar presente, muitas
danças, etc. Outras contam a todos no pub, se embebedam, fazem a maior
bagunça.
Eu mais discreta e quieta que sou, nem tenho a cara de pau de cavar presente
de ninguém mas também não posso relaxar demais e perder
dinheiro. Vou é serena e calma tentar ganhar uns trocados para o champanhe.
Amanhã comemoro.
OiLondres! - Pode contar de onde nasceu o nickname Maya Velvet?
Maya - Meu nome artístico é somente Maya, inspirado no nome de
uma personagem que vi num filme indiano, o “Karma Sutra”, da Mira
Nair. Achei o nome bonito, sonoro, fácil de lembrar e pronunciar. Mais
tarde descobri que significa "ilusão" em sãnscrito
e achei perfeito. O Velvet comecei a usar no blog porque quando fui me cadastrar
no Blogger não estava conseguindo se não pusesse um sobrenome
e resolvi inventar um só para isso. Um dos filmes que tenho em DVD é o “Blue
Velvet”, do David Lynch, que estava na minha escrivaninha na hora. Foi
assim que escolhi.
Naked Emotions - July 21,
2004
Tinha que ir na terça lá em Piccadilly Circus na escola de inglês
onde estudei nos anos passado e retrasado para pegar uma declaração.
Escolinha ruim aquela, da qual não sinto saudade nenhuma. Aproveitei
estar na área para almoçar no RYO (84, Brewer Street), cantina
japonesa baratinha- em termos londrinos - e de comida decentíssima.
Saindo do restaurante comecei a andar sem rumo pelas redondezas e acabei dando
de cara com uma lojinha deliciosa, a Playlounge,
que vende os brinquedinhos dos mais siderados possíveis, apostando na
idéia de que bonequinhos não são só desejados pelas
crianças (eu mesma sou amostra viva dessa teoria). Pena que não
tinha dinheiro sobrando e ainda bem não sou de comprar por impulso porque
fiquei boba com as miniaturas piradas, com os bichinhos de pelúcia feios-fofos.
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