Jader
de Oliveira
uma experiência
inspiradora
Jader
de Oliveira é uma figura inspiradora.
Este brasileiro, casado, dois filhos, tem
uma história profissional
que serve de exemplo para muitos jornalistas,
iniciantes ou não,
que buscam um lugar no mercado de trabalho
londrino. Nesta entrevista, o jornalista
Jader fala sobre o início de sua
profissão, as barreiras vencidas,
as conquistas ao longo dos anos e dá algumas
dicas de como vencer neste mercado tão
competitivo.
Por Viviane Borges
viviane@imagelink.com.br
Outubro/2005
OiLondres:Quando você chegou em terras
londrinas e por quê?
Jader: Eu desembarquei em Londres numa
tarde de setembro de 1968. Vim contratado
pela BBC. O contrato era de 3 anos, mas
eu fiquei, ao todo, 31 anos trabalhando
na seção
brasileira, em Bush House.
OiLondres:Quanto tempo você tem de
profissão e onde
atuou no Brasil?
Jader: Comecei no jornalismo aos 17 anos.
Comecei no Diário de Minas, de Belo
Horizonte, como repórter-auxiliar.
Lembro-me muito bem da pergunta que o editor
de esportes do jornal me fez: "Quem
você já leu?".
Por sorte, eu já havia lido bastante,
mas o que me garantiu o lugar parece ter
sido o fato de já ser, na época,
um devoto da literatura de Eça de
Querioz, o que coincidia com o gosto literário
do editor. O salário já era
baixo e eu logo procurei ampliar meu campo
de trabalho. Candidatei-me a um lugar de
redator da Rádio Inconfidência
e fui aprovado. Somando o meu começo
como répórter-auxiliar, já tenho
45 anos de profissão e ainda não
penso em me aposentar. No Brasil, além
do Diário de Minas, trabalhei na
Rádio Guarani, TV Itacolomi, Diário
da Tarde, Estado de Minas, O Diário,
sucursal de O Globo e fui free lancer da
United Press International, mandando notícias
de Minas Gerais para a sede brasileira
da agência,
que ficava no Rio de Janeiro. Passei também
uma temporada em agências de publicidade:
McCann-Erickson, no Rio, e Asa, em Belo
Horizonte, mas minha paixão sempre
foi o jornalismo.
OiLondres:Como surgiu a oportunidade de
trabalho aqui?
Jader: Aconteceu o seguinte: o chefe da
seção brasileira da BBC em
1967, John Mulholland, foi ao Brasil numa
visita de contatos. O Diário da
Tarde, onde trabalhava, me mandou entrevistá-lo.
Durante a conversa, ele me perguntou: "quando
houver uma vaga, você não
estaria interessado em se candidatar ao
concurso?". Depois,
um amigo meu que já havia trabalhado
na BBC começou a fazer a minha cabeça. "Vá que
você gostará e, talvez, não
volte mais". E aqui estou.
OiLondres:Onde você trabalha
atualmente e por onde passou?
Jader: Atualmente, sou o correspondente
da Globo News. Comecei a falar na Globo
News no primeiro dia da emissora, através
da BBC, onde a minha tarefa principal era
fazer boletins para rádios
e televisões do Brasil, com as quais
havia acordo de fornecimento de notícias.
O curioso é que, simultaneamente,
eu trabalhava, assim, para grupos rivais:
falei na CBN desde o primeiro dia, assim
como falava também para a Bandeirantes,
Itatiaia, Guaiba, Gaúcha, JB, enfim
para um número muito grande de emissoras
de rádio. Mas, também
simultaneamente, eu fui 9 anos correspondente
em Londres da Veja; 4 anos do jornal O
Globo; 8 anos do Correio Braziliense e
do Estado de Minas. Escrevi para a Agência
Estado e, como colaborador, escrevi também
para quase todas as revistas da Editora
Abril. Era uma vida louca, mas eu me deliciava
com aquele corre-corre diário.
OiLondres:Quais são as dificuldades
encontradas quando se está em busca
de trabalho em Londres, na area de jornalismo?
Jader: O mercado de trabalho para o jornalista
brasileiro no exterior mudou totalmente.
O mercado ficou encolhido com a chegada
da internet. E as empresas parecem sem
recursos para pagar correspondentes com
moeda forte.
Nos anos 70, as oportunidades
eram bem maiores. Por exemplo, havia espaço
amplo para a cobertura internacional, em
razão da censura imposta pela ditadura
militar ao noticiário nacional.
Mas eu creio que para a midia eletrônica
a necessidade do correspondente ainda é muito
grande. Será sempre preciso mostrar
uma cara, ou uma voz, falando do lugar
de onde a notícia procede. Os jornais
se viram com a internet, embora eu creia
que o correspondente de jornal ou de revista
que seja um tanto criativo encontrará sempre
excelentes pautas.
OiLondres:O idioma é uma
barreira para o trabalho do dia-a-dia?
Jader: Sem conhecer o idioma será sempre
muito difícil trabalhar em
qualquer país. Isto vigora para
os jornalistas de todas as nacionalidades.
Mas há sempre alguma saída.
Eu me lembro de uma experiência que
vivi em Hong Kong, onde o inglês é o
segundo idioma. Mas a vasta maioria só fala
mesmo chinês. Eu corri ao Clube de
Imprensa local, um reduto francamente britânico,
e obtive as informações
que necessitava para escrever sobre a volta
do território à administração
chinesa. Recorri também ao Consulado
Brasileiro e tudo acabou dando certo.
OiLondres:Em que a sua formação/experiência
profissional no Brasil foi importante para
atuar aqui?
Jader: Foi, em todos os aspectos, essencial.
Já cheguei sabendo escrever uma
notícia, uma reportagem ou preparar
uma pauta. Só não tinha muita
experiência de microfone. Isto eu
adquiri na BBC.
OiLondres:Quais as principais
diferenças
do mercado jornalístico
brasileiro para o inglês? O
que há de
mais atrativo e o que há de mais
difícil?
Jader: Estou distante do mercado brasileiro
há muito tempo. Vou ao Brasil com
bastante frequência e lá todos
me dizem: "que sorte você tem
de estar longe disso aqui". Mas eu
não
penso assim. Continuo sendo essencialmente
tribal e quando vou ao Brasil não
deixo de passar longas horas vivendo a
confusão habitual das redações.
Aqui o mercado é bem mais amplo
e sólido - mas, obviamente, para
os jornalistas locais. É uma midia
em permanente evolução. Uma
evolução que tem em mente
a influência da internet no processo
de informação
que se serve um número cada maior
de usuários da rede.
OiLondres:Há planos para
voltar ao Brasil?
Jader: Eu criei raízes muito fundas
na Inglaterra. Tenho uma mulher, que não é brasileira,
e dois filhos já adultos nascidos
aqui. Acho que passar mais de cinco anos
no exterior complica a volta.
OiLondres:Você acredita que a experiência
profissional aqui é importante quando
se volta ao Brasil?
Jader: É muito importante. Faça
a mesma pergunta aos que já voltaram
e você terá uma resposta idêntica.
Muitos custam a se readaptar, mas isso é
parte da reentrada na atmosfera do nosso
país. O que não é possível é
trabalhar no formato em que trabalhamos
aqui.
OiLondres:O que você diria para os
jornalistas que estão em busca de
trabalho por aqui?
Jader: Candidate-se a uma vaga na seção
brasileira da BBC. Ou consiga, antes de
viajar, um compromisso seguro de algum
jornal, revista ou emissora de rádio
ou televisão, para
garantir o seu sustento. Não venha às
cegas ou sem uma boa experiência
profissional, porque isto raramente dá certo.
OiLondres:O que você acha
que ainda falta conquistar aqui em Londres?
Jader: Ambições profissionais
não tem fim. Mas eu acho que já tenho
tempo suficiente para pensar em aposentar-me...
daqui a uns 10 anos!
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