Adriana Rouanet
A divulgação do cinema brasileiro em boas mãos De expectadora de clássicos americanos a diretora responsável por Cinema e Literatura no instituto cultural Brazilian Contemporary Arts (BCA) em Londres. Conheça a história de Adriana Rouanet, uma brasileira que promove o cinema e a cultura nacional na Inglaterra.
Por Viviane Borges
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Para quem veio a Inglaterra em busca de estudo, Adriana hoje tem a oportunidade de fazer o caminho contrário: ensinar e transmitir conhecimento sobre a cultura brasileira, principalmente na área de cinema e literatura. A paixão pelo cinema foi incentivada pelo pai, Sérgio Rouanet, autor da Lei de Incentivo à Cultura que leva o seu sobrenome. Envolvida na organização da programação de cinema da exposição Tropicália, no Barbican Centre, Adriana conta interessantes fatos sobre o crescimento do cinema nacional e fala sobre a importância da propagação da cultura brasileira na Europa.
Oi Londres: Por que você veio para a Inglaterra? "Fale" um pouco da sua
história.
Adriana Rouanet: Cheguei em 1995. Vim estudar jornalismo. Fiz o curso BA in Journalism and Sociology na City University aqui em Londres. Depois, fiz um mestrado e obtive uma qualificação de ensino da língua inglesa para estrangeiros, dei aula de inglês para refugiados latino-americanos e trabalhei numa escola de línguas por um tempo. Depois, fui contratada pela universidade Queen Mary, onde trabalhei como leitora por quatro anos, dando aula de português e cultura brasileira. Agora, estou trabalhando como free-lancer, tanto dando aula, como no jornalismo.
OL: Qual a sua formação?
AR: Terminei o curso de jornalismo em 1998 mas continuava insatisfeita. Resolvi fazer logo em seguida um mestrado em Humanities e Cultural Studies na Birkbeck College. O curso em si era muito pós-moderno para mim, mas foi através da minha tese de mestrado que descobri a minha paixão: estudar adaptações literárias, ou seja, a transposição da literatura para o cinema, especificamente no âmbito brasileiro. Estou fazendo um doutorado nesta área também. Ultimamente estou me concentrando no ensino de cultura brasileira, especificamente cinema e adaptações.
OL: Como aconteceu seu envolvimento com cinema?
AR: O meu pai é o culpado! Fui criada assistindo a filmes clássicos americanos, como Casablanca, Citizen Kane, os filmes de Spencer Tracey e Katherine Hepburn, entre outros. Eu e os meus pais tínhamos o hábito do "cineminha", de toda noite assistir a um filme da coleção gravada e amplamente catalogada de meu pai. Nunca perdi essa paixão. Descobri na adolescência os filmes adaptados da BBC de Jane Austen e Dickens, mas foi durante o meu mestrado que passei para o mundo brasileiro. Desde então, nunca mais abandonei o cinema. Leio muito a respeito e tento ver todos os filmes brasileiros e internacionais que posso.
OL: Você atualmente trabalha na área de cinema? O que você tem feito relacionado a isso?
AR: Como leitora na universidade Queen Mary, montei um curso introdutório de cinema brasileiro para os alunos voltados para estudos Hispânicos. Atualmente sou Diretora responsável por Cinema e Literatura no instituto cultural Brazilian Contemporary Arts (BCA) ( www.brazilian.org.uk ), e cabe a mim organizar, em nome do BCA, festivais de cinema em Londres, assim como palestras vinculadas à literatura e cinema.
OL: Atualmente, você está envolvida em alguma produção?
AR: O mais recente projeto no qual estou envolvida é a parceria entre o BCA e o Barbican Centre: a organização da programação de cinema da exposição Tropicália. Tive a honra de negociar a vinda dos diretores Nelson Pereira dos Santos e Cacá Diegues para Londres em abril deste ano.
OL: Como você avalia o cinema nacional atualmente?
AR: Acho que o cinema brasileiro sempre teve uma forte tradição mas realmente se fortaleceu nos anos 60, com o movimento do cinema novo. Acho que o cinema atual herdou muitas características deste movimento, principalmente a consciência social. Diretores como Fernando Meirelles e Walter Salles conseguem fazer cinema de alta qualidade técnica, com montagem sofisticada, e tramas interessantes sem sacrificar um certo teor sério nas narrativas: há sempre uma denúncia escondida ou clara à pobreza, a injustiça social. A minha única crítica ao cinema nacional é a necessidade que muitos diretores têm de fazer cinema situado no sertão ou em favelas. Claro que não são todos os filmes, mas a maioria dos filmes brasileiros que são lançados aqui na Inglaterra, são filmes que confirmam o que já virou um estereótipo: que filmes brasileiros são ou exóticos, no sertão, ou violentos, na favela. Acho muito saudável ter diretores como Salles e Meirelles que conseguiram sair deste chavão e fazer filmes enquanto diretores internacionais e cujos filmes foram recebidos como "filmes" e não como "filmes brasileiros".
OL: Quem investe em cinema hoje no Brasil? Quem patrocina as produções que, felizmente, não param de ser criadas?
AR: O cinema brasileiro ainda está se recuperando da perda de incentivo estatal, desde o fechamento da Embrafilme. Não há dúvida que em termos de quantidade de filmes produzidos houve uma queda desde os anos 80. Mas a produção voltou a crescer graças em parte à Lei de Incentivo à Cultura e a Lei do Audiovisual, mas também a outros fatores como: a cooperação entre produtores brasileiros e internacionais, o interesse de distribuidoras americanas como Columbia e Warner de participar na produção e distribuição de filmes brasileiros, a organização de concursos por governos federais e estaduais, e a criação da Globo Filmes. Acho que em termos de qualidade tanto de conteúdo como técnico, os filmes brasileiros de hoje são os melhores já feitos porque são filmes vistos e apreciados não apenas por estrangeiros, como era o caso nos anos de cinema novo, mas por brasileiros também.
OL: Tivemos a época do cinema novo, depois um período "negro", parado (se assim podemos chamar) e, depois um reaquecimento do cinema nacional com o lançamento de Carlota Joaquina, de Carla Camurati. Fale um pouco sobre esses três períodos do cinema nacional.
AR: Como já mencionei, o cinema novo foi muito importante como marco no cinema brasileiro. Diretores como Nelson Pereira e Caca Diegues, assim como Glauber Rocha, queriam revolucionar o cinema nacional assim como Oswald de Andrade e os modernistas queriam revolucionar a arte da década de 20 e 30. Ou seja, a idéia era de criar um cinema brasileiro, social, sério, que não seguisse as normas de Hollywood. Eles encaravam cinema como ferramenta de ação social.
O período "negro" se refere ao período de 1990 a 1995, do fechamento da Embrafilme e do Concine ao lançamento de Carlota Joaquina e Central do Brasil. Um período difícil em que a produção caiu a praticamente zero. Digo praticamente, porque apesar das condições precárias de produção, alguns bons filmes foram lançados neste período, como Boca de Ouro, Bananas is my business,, Matou a família e foi ao cinema, Oswaldianas, etc. Com Carlota Joaquina, que atingiu mais de um milhão de espectadores quando foi lançado, voltou-se a falar de cinema. Na fase da retomada, a produção se estabilizou em entre 20 e 30 filmes por ano e de acordo com a Secretaria do Audiovisual, entre 1995 e 2002 foram produzidos 167 longas-metragens no Brasil. Claramente houve um renascimento.
OL: Qual a importância de diretores como Walter Salles, Bruno Barreto e Fernando Meirelles para a exportação do cinema brasileiro?
AR: Acho esses diretores importantíssimos não só porque seus filmes são influentes e de alta qualidade, mas porque são diretores que conseguiram quebrar o ciclo de filmes sobre o sertão ou a favela. Interessante que Central do Brasil e Cidade de Deus ainda se encaixam, bem ou mal, neste chavão. Já Diários de Motocicleta e Constant Gardener são prova de que o diretor brasileiro consegue fazer um filme internacional e ser considerado como diretor internacional, não só brasileiro. Isso é uma enorme proeza.
OL: A maior parte dos filmes brasileiros tem uma marca bem nacional, ou melhor, regional. Isso pode dificultar o envio de boas produções para fora do Brasil?
AR: Ao contrário. Tomando o exemplo da Inglaterra, distribuidores ingleses tendem a distribuir filmes brasileiros que caem no chavão de favelas ou sertão. Eles sabem que o sertão será visto como exótico, lindo, etc. (foi o caso do filme Abril Despedaçado) e a favela como sinal de que o Brasil realmente é violento, (caso de Cidade de Deus), estereótipo que excita espectadores jovens, principalmente. É uma pena que filmes como O Homem que Copiava e Intolerância não tenham mercado aqui, porque são banais na visão do inglês: mostram o Brasil como um país onde não há só miséria.
OL: Central do Brasil representou um marco para o cinema brasileiro. Você concorda? Em que o filme ajudou na divulgação e na valorização dos profissionais brasileiros e do cinema nacional?
AR: O filme conquistou platéias no Brasil e no mundo todo. É um filme delicado, bem montado, com um trilha sonora bonita. Mostrou que é possível fazer um filme que leve à reflexão sem ser condescendente, e que seja sentimental sem ser melodramático. Acho que o filme introduziu um novo padrão de qualidade no circuito nacional.
OL: Como o cinema brasileiro é visto aqui na Inglaterra?
AR: Acho que de certa forma o cinema brasileiro ainda é visto por ingleses como um cinema de duas faces: sertão/favela. E enquanto distribuidores ingleses não se interessarem por um outro Brasil, vão ser esses os filmes que eles vão importar. Infelizmente, eles não encaram filmes como Constant Gardener e Diários de Motocicleta como filmes brasileiros, e técnicamente, não são mesmo, porque foram financiados por produtoras internacionais e são em línguas estrangeiras Mesmo assim, acho que o bom cinema brasileiro é aquele que tem apelo universal mesmo se o conteúdo for brasileiro, e que tem apelo nacional mesmo se a história se passa fora do Brasil. Dá perfeitamente para fazer isso sem se recorrer a chavões.
OL: Há festivais para veiculação de filmes brasileiros em Londres? Onde
as pessoas podem achar informações sobre isso?
AR: Há vários festivais que veiculam filmes brasileiros: O London Film Festival, o Latin American Film Festival, festivais como o atual, no Barbican Centre (Tropicália), festivais organizados por pequenas organizações como o Brazilian Contemporary Arts.
OL: Quais as similaridades e diferenças mais marcantes entre o cinema
inglês e o brasileiro?
AR: O cinema inglês é muito marcado pelo humor, pela sátira, pelo deboche. No Brasil, há alguns filmes assim, como Deus é brasileiro, de Cacá. Mas não diria que é a característica mais marcante do nosso cinema. Acho que o cinema brasileiro tem uma preocupação social muito grande, que vem da nossa história e situação sócio-econômica.
OL: Quais os projetos relacionados ao cinema que você tem para o futuro?
AR: Pretendo terminar o meu doutorado e começar a dar aula de cinema em uma universidade inglesa. Além disso, pretendo continuar a organizar festivais de cinema aqui em Londres. Co-organizei o festival em 2002 no ICA "Novo Cinema Novo- Brazil on film", e como já citado, estou co-organizando o festival de cinema Tropicália, parte da exposição no Barbican, em nome do Brazilian Contemporary Arts.
OL: Há outros projetos em pauta? Quais?
AR: Vou abrir em breve uma escola de inglês para brasileiros em Kilburn, um projeto que venho desenvolvendo há bastante tempo.
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