Vivendo
à margem
Basta aproveitar um desses maravilhosos
dias
de sol em
Londres e andar de um lado a outro da
Oxford Street para constatar o óbvio:
a cidade está, mais do que nunca,
repleta de brasileiros. Muitos deles
são turistas ou estão trabalhando
legalmente, mas há uma imensa
parcela que resolveu apostar no incerto,
trabalhando e vivendo sem visto na capital
do Reino Unido.
Os imigrantes ilegais, depois da dura
missão de passar pelo Immigration
Office, no aeroporto, geralmente montam
repúblicas formadas apenas por
compatriotas, a maneira mais barata
de se hospedar na capital britânica.
Essas casas também servem como
uma forma de facilitar a adaptação
ao país estrangeiro.
Só quem passou por essa experiência
sabe o quanto é difícil
a vida do imigrante ilegal. Pra saber
mais sobre isso, entrevistamos um grupo – a
maioria vindo de Campo Grande, capital
do Mato Grosso do Sul – que montou
uma república no sudeste de
Londres. Os nomes dos entrevistados
não são necessariamente
seus nomes verdadeiros.
Dívidas
Na casa moram, atualmente, oito pessoas.
Cinco são de Campo Grande
e os demais de outras partes do país.
Todos eles saíram do Brasil
desanimados com as poucas perspectivas
de trabalho e os baixos salários
e estavam à procura de um
futuro melhor ganhando em libras.
Os primeiros a chegar de Campo Grande
foram Oscar e André, em novembro
de 2001.
“
Fomos até a Irlanda e de lá pegamos
um navio pro sul do Reino Unido. Era
esse o esquema da época pra
burlar a imigração”,
conta Oscar. Hoje a rota é outra,
segundo ele:
“ O melhor hoje é ir
pra Paris e de lá pegar o último
Eurostar, quando já não
há quase fiscalização”.
Todos eles são pessoas simples
que tiveram que contrair muitas dívidas
pra conseguir viajar e realizar o sonho
de batalhar a vida em um país
de Primeiro Mundo. Oscar vendeu o carro
da avó e seu próprio
carro pra comprar a passagem: “Vendi
o meu passado inteiro”, diz ele.
André, além de também
vender o carro, financiou a passagem
em 12 vezes. Demorou 6 meses em Londres
pra pagar todas as dívidas.
Hoje, mais de dois anos depois da
viagem, eles estão em situação
mais cômoda. André trabalha
em um restaurante e Oscar está no
ramo de construção civil,
mas também ganha dinheiro hospedando
recém-chegados nas casas em
que aluga.
Saudades
A vida para esses imigrantes ilegais
muitas vezes é bastante dura.
Preocupados em economizar uma quantia
que em Londres não vale tanto,
mas que no Brasil é preciosa,
eles muitas vezes deixam de se divertir
em nome dos seus objetivos. As poucas
folgas são aproveitadas em
casa mesmo .Viagens para outros países
europeus, nem pensar, principalmente
por causa do problema da imigração,
na volta.
“ A vida aqui é muito
triste, sinto saudades da alegria do
Brasil, dos churrascos. Ninguém
aqui parece confiável, tudo
gira muito em torno do dinheiro. Sempre
tem alguém querendo te passar
a perna”, acha André.
“ Tenho muitas saudades da minha
família e da minha filha. Pretendo
ir pra lá esse ano, mas acabo
arriscado a não conseguir voltar”,
conta Oscar.
Miami x Londres
A alagoana Mariana, outra hóspede
da casa, chegou há pouco do
Brasil. Ela tem a experiência
de ter morado um ano e meio em Miami,
o que segundo ela ajudou muito na hora
de passar pela imigração.
Em pouco tempo em Londres, ela já conseguiu
emprego e está plenamente adaptada à “Miami
européia”.
“ Não senti muita diferença
em relação ao lugar que
morei nos EUA, a não ser o clima”,
diz ela. “As pessoas lá também
são mais alegres, mas eu prefiro
o jeito de ser do povo daqui”.
Mariana, assim como os demais, também
teve que investir bastante na sua viagem.
Graças ao dinheiro conseguido
em um acordo de demissão, no
Brasil, e a um parcelamento em 10 vezes,
ela conseguiu chegar a Londres.
Dinheiro fácil?
Entre os personagens da casa, um em
especial chama a atenção.
Samuel chegou do Brasil no começo
de 2004 com a ajuda do pai e, sem
conseguir opção melhor,
começou a fazer programas: “Nunca
tinha feito isso no Brasil e nunca
em minha vida pensei que ia ter que
fazer sexo por grana, mas não
tive opção. Meu visto é de
turista e eu não posso trabalhar”,
conta Samuel. Ele diz que, hoje em
dia, devido ao aumento da fiscalização, é muito
difícil conseguir emprego
sem um visto apropriado. “A
imigração está em
toda parte e as empresas, bares,
clubes e lojas são mais rigorosos
na hora da contratação.
E não pense em fazer carteirinha
falsa, pois agora eles estão
checando”, recomenda.
Sobre as dificuldades do seu trabalho,
Samuel brinca: “Como diz um amigo
meu, na hora é só pensar
na cara da rainha nas notas”.
Ele diz ter escolhido Londres por ser
uma cidade gay, pelo clima frio e por
ter amigos morando na capital. O lado
bom da sua história: Samuel
diz ganhar em média R$ 11 mil
por mês.
Voltar jamais!
Apesar da vida dura de muito trabalho,
saudades, poucas folgas e pouca diversão,
esse pessoal não pretende
voltar em definitivo ao Brasil nunca
mais. Todos eles pretendiam voltar
depois de alguns anos, mas acabaram
mudando de idéia. Não
dá mais pra se acostumar aos
padrões de salários
do Brasil.
“ Dos que vêm fazer a
vida aqui, 80% não voltam”,
diz André. “Lá a
gente só gasta. Aqui consegue
juntar”, concorda Oscar.
Para terminar, o experiente Oscar
dá um recado para brasileiros
que pretendem seguir os seus passos: “Os
brasileiros têm que tomar cuidado
com os picaretas que vendem pacotes
no Brasil incluindo emprego garantido
em Londres. Já cansei de ver
muitos deles chegando aqui e tendo
que pedir ajuda porque foram enganados
e não têm mais dinheiro
para se manter”.
Segundo Oscar, esses “pacotes” costumam
custar no mínimo US$ 800, pagos
ainda no Brasil e sem nenhuma garantia.
Aceitar propostas como essas é muito
arriscado.
E ele ainda dá outra dica: “Venham
com dinheiro para pelo menos um mês.
Trabalho aqui é o que não
falta, mas reservas de dinheiro para
o começo são sempre bem
vindas”.
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