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David Treece
Diretor do Centro para Estudos da Cultura e
Sociedade Brasileira do King’s College

Por Yami Trequesser / Foto: Divulgação

Na porta do escritório de David Treece no King’s College está colado um poster do filme Cidade de Deus. Lá dentro, as prateleiras que recobrem a parede do lado esquerdo da sala são preenchidas com livros sobre o Brasil, na janela tem pendurado um cocar de índio e perto do computador um berimbau. E como admirador e estudioso da cultura brasileira, o diretor do Centro para Estudos da Cultura e Sociedade Brasileira do King’s College, aceitou conceder a entrevista em Português.

Paixão pelo Brasil

“Cheguei ao Brasil via os estudos hispânicos. É muito comum alguém estudar Espanhol e desenvolver interesse pela língua Portuguesa. Então, resolvi tentar uma vaga para um curso de bacharelado que incluísse Espanhol, Português e ainda ensinasse algo sobre cultura Ibérica. Foi assim que conheci John Gledson que se tornou meu tutor na Universidade de Liverpool. Ele é um dos maiores especialistas em Machado de Assis, e, por isso, passei também a me interessar pela literatura e pela poesia modernista, como os textos escritos por Carlos Drummond de Andrade.

No fim do curso de bacharelado comecei a pensar em possíveis idéias para o PhD. E acabei escolhendo a questão do Indianismo no Brasil, unindo o conhecimento acadêmico sobre esse assunto com o conhecimento político e cultural. Aprendi a falar Português, pois tive ótimos professores na faculdade e morei 1 ano em Portugal. O Brasil provoca uma certa paixão nas pessoas. E a afinidade, vejo isso nos alunos, sempre ajuda a aprender uma língua estrangeira.

Faz 20 anos que estou indo ao Brasil. Minha primeira viagem aconteceu em 1984, exatamente no final do período da ditadura. Assisti aos comíssios das Diretas Já de um prédio na Candelária. Depois disso fui ao Brasil diversas vezes, não somente como pesquisador, mas como interessado no lado social do país. Participei da Brazil Network, ONG que tem como objetivo reforçar os vínculos de apoio mútuo entre Brasil e Reino Unido.”

Profissão

“Desde 1987 trabalho no King’s College. O Centro para Estudos da Cultura e Sociedade Brasileira nasceu em 1996. E há 3 anos me tornei Chefe do Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros.

Sempre há um ou outro brasileiro nos cursos de graduação e pós-graduação. São pessoas que já moram aqui e decidem conhecer um pouco mais sobre o próprio país através de uma visão européia. Temos alunos portugueses e filhos de portugueses, radicados no Reino Unido. Mas a maioria é de origem britânica e entram no curso da mesma maneira que eu entrei. Se formam em línguas modernas e resolvem juntar o Português com outras disciplinas (Alemão, Francês ou História).

Várias vezes recebemos alunos de pós-graduação da Unicamp (Universidade de Campinas) e USP (Universidade de São Paulo). Estamos também investindo num convênio com a UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Esses estudantes geralmente estão fazendo mestrado sanduíche e querem ter acesso a recursos daqui, como bibliotecas e palestras.

Ao todo, juntando estudantes de BA (bacharelado), MA (mestrado), PhD e pesquisa, temos 100 alunos. O Português é uma disciplina minoritária. Mas nos últimos anos temos recebido apoio do Governo Britânico, que reconheceu que o curso merece recursos para manter a disciplina viva.

A política do Reino Unido mudou e 2/3 dos colégios não são mais obrigados e ensinar línguas estrangeiras. Acredito que esse ensino deveria aumentar, não diminuir. Muitos alunos da Grã-Bretanha nem sabem que o Português existe. Por isso, há alguns anos criamos um prêmio anual em parceria com as escolas públicas e particulares e a Fundação Gulbenkian em Londres para presentear com dinheiro o aluno e o respectivo colégio que têm melhores resultados na disciplina. É uma modesta tentativa. O Departamento ainda organiza eventos, seminários de pesquisa acadêmica e conferências. Eu costumo divulgar essas iniciativas através da lista de discussão. Para se cadastrar, basta mandar um email para Portuguese@kcl.ac.uk.

Fechamos um acordo com a Editora Boulevard para traduzir livros de escritores brasileiros com o apoio do Ministério da Cultura e o Ministério das Relações Exteriores. A Embaixada Brasileira também tem oferecido um imenso apoio, nos ajudando a conseguir contribuição financeira para nossos eventos, passagens aéreas para trazer palestrantes e convites para participar de eventos culturais.

Agora estamos trabalhando em um projeto chamado ‘Cultures of the Lusophone Black Atlantic’, que desde o início do ano está incentivando e orientando pesquisas em torno da diáspora negra no triângulo Lusofônico (Portugal, Brasil e África) do Atlântico.”

Impacto da cultura ‘made in br’ por aqui

“Foi um processo gradual de entrada da cultura brasileira aqui e recentemente nasceu esse surto. Acho que ele foi impulsionado pelas celebrações dos 500 anos, onde aconteceram vários eventos oficiais organizados pela Embaixada. Esse momento coincidiu ainda com a nova fase política e social de alguns países da América Latina, como a da Argentina, da Bolívia e do Brasil. A nova esquerda ganhando força. Assim, a América Latina voltou às manchetes. E o Brasil ganhou um destaque muito importante nesses acontecimentos.

O país está culturalmente numa fase produtiva, exportando muito. Música é um exemplo; mercadoria que virou uma categoria significativa. A Jazz FM, por exemplo, tem um apresentador muito interessado no Brasil. O cinema passou por fases de recessão nacional, mas agora está em uma nova fase. Não podemos esquecer do fenômeno internacional da Capoeira. É uma coisa espantosa.

O número de brasileiros em Londres cresceu muito. Todos os dias eu sento ao lado de alguém falando Português no ônibus ou no metrô. Por tudo isso, aconteceu um aumento do interesse dos britânicos no Brasil. Além disso, a comunidade brasileira aqui é extremamente ativa. Está sempre organizando iniciativas interessantes e criativas.”

Imigração

“Sou contra qualquer tipo de política de imigração. Existe uma liberdade enorme de imigração na área comercial. Por que não seria o mesmo para qualquer um? Falamos muito da globalização, mas quem quer ter uma vida melhor tem que passar por humilhações e abusos. É um disparate total.

E os fluxos migratórios sempre foram uma realidade na história mundial. As pessoas deveriam parar de reclamar que estamos ameaçados por uma inundação de imigrantes. A reclamação tem que ser sobre a falta de emprego e de oportunidade.”

David Treece é também autor dos livros “The Gathering of Voices: The Twentieth-Century Poetry of Latin America”, com Mike Gonzalez (Editora Verso Books); “Babel Guides – Brazilian Fiction”, com Ray Keenoy (Editora Boulevard); “Babel Guides – Portugal, Brazil, Africa Fiction” (Editora Boulevard).

 

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