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Coisas da Língua

Por Paula Góes

Uma polêmica tem sido causada por um, dentre as centenas de novos verbetes incluídos no novo Oxford English Dictionary, e está na boca dos brasileiros que vivem em Londres. Com a inserção, a palavra “Brazilian” tem um novo significado oficial para os nativos de língua inglesa, e ao mesmo tempo que descreve os nativos da nação brasileira, é também sinônimo de depilação. Brazilian: "Estilo de depilação no qual quase todos os pêlos pubianos da mulher são retirados, permanecendo apenas uma pequena faixa central".

O termo, já há algum tempo, era jargão dos salões e institutos de beleza para um dos tipos de depilação oferecidos. Aliás, é o que todas brasileiras precisam fazer para desfilar com os modelitos de biquínis usados no Brasil, considerados muito pequenos mesmo para os padrões britânicos. Para os indignados com o novo sinônimo, resta apenas se conformar que poderia ser pior, como o exemplo da depilação Hollywood, em que não sobra pêlo para contar a história.

Português no Inglês

As interferências do Inglês no Português, no entanto, são algo muito mais comum, e ainda quem mora no Brasil e nem fala inglês, é familiarizado com muitas palavras inglesas integrando o vocabulário, e algumas que já estão nos dicionários de português. Não se pode negar que qualquer brasileiro entende muito bem o significado de shopping, surf e deletar, e centenas de outras.
Porém, mais engraçado ainda é quando o inglês começa a interferir no português dos brasileiros que moram no Reino Unido. Mesmo em conversas informais entre o grupo, devidamente em português, palavras como job e bus são mais freqüentes que as correspondentes na língua nativa. Afinal, é muito mais fácil, por exemplo, falar “flatmate” que companheiro de apartamento, e “e-mail” no lugar de correio eletrônico.

Talvez a confusão seja normal para quem vivência a aventura de aprender uma língua sem deixar de vez a convivência com a que se fala. Ou talvez um bloqueio na memória para lembrar as palavras em português, ou ainda por ser engraçado. Mas o fato é que a coisa flui mais ou menos assim, “ei, mate, liga no meu mobile later, que agora eu tô meio busy no job”. Ou, traduzindo, “ei, cara, liga mais tarde no meu celular que eu tô meio ocupado no trabalho”.

Inglês no Português

O mais curioso de tudo é o modo como algumas palavras inglesas tomam a forma de regência em português. Por exemplo, ninguém mais estaciona carro, a onda é “parkiar”, já que em inglês se fala “to park” para o mesmo ato. Assim sendo, os rapazes preferem “shaviar” em vez de fazer a barba (que vem do “to shave”) e todo mundo só lembra de “bookar” na hora de reservar qualquer coisa (“to book” é o verbo para marcar horas em consultórios médicos, reservar uma hora na internet grátis das bibliotecas ou hotéis etc.). E a galera que trabalha em pubs e restaurantes sabe bem que no final do expediente é hora de suipar e mopar o chão, ou seja, varrer e esfregar, emprestando e aportuguesando os verbos “to sweep” e “to mop”, respectivamente.


E a mais interessante de todas: os brasileiros em Londres “aplicam” por uma vaga de emprego. “To apply” é o verbo para se candidatar para uma entrevista de trabalho, que é largamente usado em anúncios e um dos primeiros que se aprende por aqui. Nesse caso, já que o correspondente em português é mais usado para o ato de usar a injeção, o verbo toma um sentido novo. E o processo não acaba aí: para “aplicar”, o brasileiro preenche um “form” e reza para que tudo fique “cool” “asap” (abreviação de “as soon as possible” ou assim que possível). Por falar nessas últimas, ainda as slangs! Mas aí isso já é papo para outro artigo!


 

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