|
Amon
Tobin
Um
dj "quase nada" brasileiro
Yami
Trequesser
Eu
realmente não sabia o que
esperar quando peguei o telefone
para fazer essa entrevista. Já tinha
lido vários artigos sobre
Amon Tobin e sabia que ele era
um DJ respeitadíssimo mundialmente.
Nascido no Rio de Janeiro, deixou
o país quando tinha 2 anos
e morou em diversas partes do mundo,
até se estabelecer totalmente
em Brighton, no sul da Inglaterra.
Liguei
na hora combinada. Ele estava terminando
de fazer um mix e me pediu para ligar
em 30 minutos. Logo achei que ele
não queria ser entrevistado.
Mesmo assim esperei os 30 minutos
e liguei novamente. Ele atendeu e
a partir daí tudo correu macio.
Amon
Tobin, com uma voz suave e tranquila,
respondeu a todas as minhas perguntas,
me fez cair na gargalhada várias
vezes e foi gentil até não
poder mais. Fomos obrigados a terminar
a entrevista, pois o telefone dele
ficou sem bateria. Eu disse “goodbye”,
ele me respondeu com um “tchau”.
Oi Londres! - Você nasceu no Rio de Janeiro, mas deixou o país
quando ainda era criança. Mesmo assim, você deseja ser conhecido
com um artista Brasileiro?
Amon Tobin - Acho que o Brasil é um país muito exótico,
com ritmos muito interessantes. E não me entenda mal, tenho muito orgulho
de ser brasileiro. Os jornalistas adoram me tachar como brasileiro e explorar
esse lado, mas eu resisto. Tento colocar menos ênfase no lugar de onde
eu venho e mais ênfase para onde estou indo. Quero ser apreciado pelo
que estou fazendo, pela música que desenvolvo. Sempre estou muito focado
na minha música.
Oi
Londres! – Mas se você não
quer ser tachado como brasileiro,
por que te apelidaram de “Silent
Brazilian” (Brasileiro Silencioso)?
AT - É que
não falo muito. Minha
música fala por si mesma.
Eu não preciso dizer nada,
tento deixar a música
se expressar.
Oi
Londres! – Em uma de suas
entrevistas você disse que
a sua música não
deve ser definida como Drum n’ Bass.
Como podemos definir o seu estilo,
então?
AT - Essa resposta é com
você. Não tenho que me
preocupar em descrever ou definir o
que faço. Eu simplesmente crio
músicas.
Oi
Londres! – No início
da sua carreira você usou
o nome artístico de Cujo.
Por que?
AT - Eu estava na praia em Brighton e o meu CD ia ser lançado
em duas semanas. Precisávamos achar um nome artístico e na noite
anterior eu tinha visto esse filme do Stephen King, que tinha um cachorro maluco
chamado Cujo.
Oi
Londres! – E o que aconteceu
depois de lançar esse primeiro
CD, em 1996?
AT - O CD foi lançado pela gravadora Ninebar e tínhamos
problemas de distribuição. Mesmo assim fez muito barulho. E a
gravadora inglesa Ninja Tunes me ofereceu um contrato.
Oi Londres! – A Ninja Tunes é uma pequena gravadora.
Em algum momento já pensou em trocá-la por uma gravadora maior?
AT - Ter um contrato
com uma gravadora maior envolve ter
menos controle sobre o tipo de música
que voce faz É muito assustadora
essa idéia. A Ninja Tunes
tem o tamanho certo para me oferecer
um ótimo balanço, pois
posso ter total controle sobre o
que crio e ainda ter boa distribuição.
Minhas músicas não
são decididas por um grupo
de executivos. São decididas
por mim.
Oi
Londres! – Ter liberdade
durante o processo de criação é muito
importante?
AT – Acho difícil trabalhar com restrições.
Quero fazer música que eu considero boa. Não conseguiria produzir
se alguém tivesse me dizendo o que fazer. E essa é uma situação
muito comum no mundo da música. Eles te dão algo e dizem que
querem essa música desse jeito.
Oi Londres! – O que te fez recentemente mudar de Brighton para
Montreal?
Cansou do clima e do chá inglês?
AT – (Risos) Passo muito tempo em estúdio ou
em turnês e quase nunca em casa. Ainda tenho minha casa em Brighton e é ótimo,
pois quando estou em turnês pela Europa posso ficar lá. Aqui em
Montreal a indústria de cinema é mais aguçada.
Oi Londres! – O seu sonho ainda é fazer a trilha sonora
de um filme?
AT – É sim, mas ainda não aconteceu. No momento
estou trabalhando na trilha sonora de um videogame chamado Splintercell. Tenho
umas reuniões com uns carinhas de rabinho de cavalo (gargalhadas), mas
tirando isso está sendo ótimo. Tenho total controle de que tipo
de música criar para esse projeto. Desde criança eu queria fazer
isso.
Oi Londres! – Fazer a trilha sonora de um filme talvez envolva alguém
ter controle sobre a sua criação. Você abriria mão
do seu sonho ou da sua criatividade nessa situação?
AT – Não abriria mão da minha criatividade. E,
talvez por isso, a grande indústria de cinema não seja pra mim.
Tenho que achar um diretor aventureiro com muita coragem para experimentar
algo novo.
Oi
Londres! – O seu CD Permutation
foi lançado em Brasil em
1998. Pretende lançar outros álbums
por lá?
AT - Pode parecer
estranho, mas é muito
difícil conseguir distribuição
no Brasil. Parece-me, e me corrija
se eu estiver errado, que as
grandes gravadoras têm
uma enorme presença no
país e não querem
pequenas gravadoras, como a Ninja
Tunes, atuando na área. É realmente
muito difícil. Eu não
sei se você conseguiria
comprar meus CDs no Brasil.
Oi Londres! – Em 2001 você foi ao Brasil fazer shows no Abril Pro
Rock. Tem planos de voltar?
AT – Pretendo voltar quando lançar meu próximo álbum,
no verão do ano que vem. Tive o meu melhor e pior show no Brasil durante
esse festival. No show que fiz no Rio de Janeiro, muitas pessoas vieram assistir.
Inclusive a minha família, que eu não via há anos. Fiquei
hospedado em um hotel simples de Copacabana e meus tios disseram que ali era
lugar de prostituta fazer ponto de noite. Além disso, eles também
me contaram que o lugar onde eu ia tocar era uma galeria pornô durante
o dia (gargalhadas).
Aí fui tocar em Recife. Antes de mim tocou uma banda local, muito adorada
[O Rappa]. O vocalista tinha levado 7 tiros e fez um discurso emocionante.
Depois dele veio o Asian Dub Foundation cantando músicas sobre como
era difícil viver em Brixton. Depois deles foi a minha vez de tocar
e todo mundo foi embora. A pista ficou vazia!
Oi
Londres! – Em qual projeto
você está trabalhando
agora?
AT – Estamos lançando um CD chamado Solid Steel, que
foi gravado ao vivo em Melbourne. E no verão do ano que vem devo lançar
um outro CD, no qual estou trabalhando agora. Ainda não tem nome. Depois
disso vou começar a turnê pelo mundo.
Oi
Londres! – Os nomes dos seus
discos (Bricolage, Permutation,
Supermodified, Out from Out Where)
sempre passam uma idéia
de mudança. É de
propósito?
AT – Todos os títulos dos meus discos são os mesmos.
Isso acontece porque faço minha música com sons gravados, uso
samples, crio com fragmentos roubados. Pego tudo isso e transformo em outras
coisas.
Oi Londres! – Li que você gostaria de fazer música
com o Tom Zé. Essa idéia ainda está em seus planos?
AT – Tudo
está se movimentando muito
rápido. Tenho uma lista de
pessoas com as quais gostaria de
fazer música. Quem sabe um
dia.
Oi Londres!– Quem são essas pessoas?
AT – Uau, cara, tem uns Mc’s Jamaicanos e uma
mulheres MC’s, como a Cecile, a Tine Stevens, a Lenki. Você entende
de música?
Oi
Londres! –Menos que você,
com certeza… (risos)
AT – (Risos) Esse pessoal está fazendo coisas muito interessantes,
mas não estão ganhando o respeito que merecem. Acredito que agora é um
momento excitante para trabalhar com eles.
Oi
Londres! – Só um momento,
por favor, pois estou digitando.
AT – Eu
falo muito, né?
Oi
Londres! – De jeito nenhum.
Você é um ótimo
entrevistado, pois fala bem devagar.
Tem entrevistado que fala 20 palavras
por segundo e não deixa
tempo para o entrevistador digitar.
(risos) Alguma música brasileira
tem chamado a sua atenção?
AT – Tenho ouvido um cara chamado Diplo, de Atlanta (EUA). Ele
foi ao Rio de Janeiro e gravou sons de músicos brasileiros. Muito bom.
Se chama Favela on Blast – Rio by Funk. Gostaria de conhecê-lo
e ir ao Brasil para fazermos algo juntos. |