A Falange Musical de Lenine
por Néli Pereira
Esse é um pernambucano arretado! Desde quando iniciou a carreira, com o primeiro LP Baque Solto, em parceria com Lula Queiroga em 1982, Lenine revelou que sua contribuição para a música brasileira não seria passageira.
O primeiro disco solo O Dia em que Faremos Contato foi um refresco para MPB. Lenine, com cautela e precisão misturou a música tradicional do Recife com influências pop e da música eletrônica e imprimiu de vez sua pegada na sonoridade da música brasileira que, desde então, nunca mais foi a mesma.
O nome dele é Peri, Tupy and not to Tupy, Ele é brasileiro, mas é do mundo e nos revela nessa entrevista que o canibalismo antropofágico de Oswald , Mario e outros modernistas continua mais atual do que nunca. E que o Brasil, yes sir, tem ainda muito para mostrar para o mundo, sem perigo de parecer bairrista.
Lenine faz o lançamento em Londres do álbum mais recente, Incité nesta terça feira, no Queen Elizabeth Hall a partir das 19:30. Confira um pouco mais sobre o disco na entrevista que o OiLondres fez com o músico. Curta essa entrevista como se curte uma boa música! Vale a pena!
O disco InCité foi gravado na Cité de la Musique, em Paris, com uma baixista cubana e um percussionista argentino. Como essa atmosfera de nacionalidades, influências, ritmos e estilos contribuiu para o resultado final do disco?
Essa atmosfera acontece sempre. A gravação de um CD é sempre mais
laboratorial, mais uma experiência mesmo. O estúdio é um momento que testa a química das pessoas, as sensações, influências e isso sempre aconteceu de uma forma ou de outra em todos os meus discos. A diferença do InCité é que primeiro, é um disco ao vivo, foi gravado para um DVD, entrou no processo inverso do mercado, pois do DVD extraímos o CD. Além disso, foi uma produção em euro. Só eu mesmo podia produzir isso!
Você sempre se relacionou com outros músicos durante a carreira, não só nos seus discos e parcerias, mas como produtor. Você já produziu Chico César, Maria Rita, o musical Cambaio; esses trabalhos influenciam a tua obra musical? A generosidade musical é uma vida de duas mãos?
Eu acho que sim. É claro que eu tenho discernimento de atuação. Mas produzir Chico, Maria Rita, Mestre Ambrósio é uma atividade, um trabalho atrás de uma assinatura. E quando é um disco meu, um disco de intérprete, é diferente. Mas a generosidade está sempre presente.
Esse disco InCité é uma homenagem aos trovadores. De alguma forma a escolha do repertório teve esse estilo reportagem musical em mente? Isso, de alguma forma, sempre permeou o teu trabalho?
Completamente. Não apenas as composições que foram feitas especialmente para o repertório do InCité, mas também aquelas que eu pincei de outros discos, dos repertórios anteriores. Essa crônica musical esteve em mente o tempo todo e quando eu ouço música do Neil Young, Chico Buarque consigo identificar a presença dessa figura do trovador, que documenta a humanidade desde o século XI.
O Brasil tem vários compositores com essa característica, desde Aldir Blanc com De Frente pro Crime e outros tantos compositores que seguem esta linha, como Moreira da Silva, Adoniran Barbosa. Você acha que o brasileiro já está acostumado com esse estilo da música retratar uma realidade?
A música anda de mãos dadas com as artes pláticas, com o teatro, com a dança, e o brasileiro sempre fez essas parcerias, essas misturas. O Brasil sabe como fazer isso, e eu não sou bairrista!
Dos anos 90 pra cá o eixo Rio-São Paulo se expandiu e o manifestações musicais de outras regiôes, como Pernambuco, Bahia, também conquistaram espaço e atingem um público maior. A que você atribui isso?
A expansão é um movimento natural. Esses dois pólos do eixo Rio/São Paulo monopolizaram, ou melhor esteriopolizaram a música brasileira, como uma regra, uma lei vigente no país. Eu fico muito feliz que hoje outros pólos recebam atenção, Belo Horizonte, Bahia, Maranhão, que os pólos regionais também têm espaço.
E não te surpreende que os regionalismos ganhem espaço justamente em uma época em que todo mundo se preocupa com a globalização?
A globalização é natural e o Brasil é o foco da atenção. A globalização, com os pontos positivos e negativos, é uma tentativa de se falar a mesma língua, de transformar o mundo em um híbrido; o Brasil sempre vivenciou isso. O Velho Mundo começou a aprender só depois da II Guerra Mundial, mas para nós.... tudo nos foi importado. Tudo, menos aquela tradição indígena que diz que se você quer enfrentar teu inimigo, coma ele.
Então você acha que a "falange cannibal", a antropofagia e o canibalismo cultural das idéias de Oswald e do movimento Modernista estão mais em voga do que nunca?
É claro! Nós somos frutos dessa promiscuidade, somos acostumados a isso.
E qual será, Lenine, o repertório do show que você vem fazer em Londres?
O show InCité é um movimento diferente do disco. A gravação é um processo mais intimista, aqui é onde eu arrisco mais, experimento mais para fazer o disco. Depois de ser transformado em CD para virar espetáculo, essa transpoisção do CD para o show é diferente porque no InCité eu não tinha a idéias de prosseguir com a formação. Portanto, esse show está mais para EXCité do que para InCité.
E a Europa já entendeu que o Brasil não é so naif , que nós temos a condição de ter uma cultura de primeiro mundo. E essa coisa de primeiro, terceiro mundo é uma coisa estranha, vou te dizer. Porque se você pensar que a Terra é o terceiro planeta do sistema solar, todos somos do terceiro mundo!
Confira também o site do músico, você pode curtir trechos das faixas do disco e navegar pela biografia e discografia de Lenine. Acesse:
www.lenine.com.br
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