A
invasão
do funk carioca
na Europa
O
DJ Marlboro, que tocou em Londres
no meio do ano, fala sobre
a nova onda
do funk carioca, que já foi
tema de anúncio de carro e teve
um hit remixado por Fat Boy Slim
Por Gabriela Boeing
No início deste ano, um comercial
do carro Nissan foi veiculado na TV
britânica com o funk "Quem
Caguetou?". Não demorou
muito, a música foi remixada
por Fat Boy Slim com o nome de "Follow
me, follow me".
Aquele foi apenas o primeiro contato
da Europa com o funk carioca, um estilo
que existe desde o final dos anos 70,
mas que virou moda mesmo nos anos 90.
No meio
do ano, DJ Marlboro tocou em Londres,
em Portugal e no badalado festival
de música eletrônica,
o Sonar, realizado na Espanha. Em novembro,
o selo
Mr. Bongo lança no Reino Unido
a coletânea de funk "Slum
Dunk presents Funk Carioca", com funks
selecionados por Marlboro e remixados
pelo Duo Tetine, brasileiros residentes
em Londres e apresentadores do programa
semanal
Slum Dunk, na rádio FM Resonance.
Marlboro toca em Portugal, em novembro.
O DJ carioca ainda não sabe
quando volta a Londres, mas garante
que, com
o funk virando moda por aqui, não
vai demorar muito.
OiLondres!
- Por que você acha
que as pessoas na Europa começaram
a se interessar pelo funk carioca?
DJ Marlboro -
Acho que foi mesmo depois do comercial
da
Nissan, com o "Quem
Caguetou?", de Black Alien, Tejo
e Speed. Quando as pessoas na Europa
começaram
a ouvir uma música completamente
diferente, começaram a questionar "Nossa,
o que é isso?
De onde está vindo?". Aí começaram
as matérias sobre funk no Rio,
os bailes.
E com a internet, o europeu começou
a ter o primeiro contato com o funk.
E é impressionante que, hoje
em dia, se você digita em busca
na internet a palavra funk, o resultado
vem relacionado ao funk carioca e não
mais a James Brown, ao antigo funk.
OiLondres!
- No Brasil, principalmente nos anos
90, houve um
momento em que
o funk estava na moda entre a classe
média.
Mas ainda existe preconceito contra
funkeiro. Você acha que, tocando
em lugares como o Lov.e, em São
Paulo, e o funk virando moda na Europa,
esse preconceito no Brasil pode acabar?
DJ Marlboro -
Claro que sim. Porque no Brasil é assim.
Hoje, funk é coisa
de "
preto, pobre e favelado". Mas
o preconceito da classe média
pode terminar com a moda na Europa.
Como aconteceu com o samba no passado.
Todo mundo torcia o nariz para aquela
música
que vinha do morro. Mas depois que
o gringo descobriu o samba é que
os mais ricos falaram: "não é que é legal
mesmo?"
OiLondres!
- E como desvincular o funk da violência?
Porque muitos quando pensam em funk
pensam em bailes com brigas de gangues.
DJ Marlboro -
Só o tempo vai
ajudar. Existiam sim quatro ou cinco
bailes que eram violentos mesmo. Mas
aí a polícia
e o governo quiseram fechar, proibir
todos os bailes. Generalizaram. Mas
quando tem uma boate na Zona Sul com
filhinhos de papai arrumando confusão,
eles vão lá, prendem
os arruaceiros e fecham a boate. Por
que funk não tem
o mesmo tratamento? Se tem um baile
que tem problemas, porque não
chegam lá e fecham aquele baile?
Por quedizer que todos os bailes têm
violência?
Tem uma porção de gente
boa que vai para o baile só para
se divertir.
OiLondres! - Você acha que mesmo
não entendendo as letras, os
gringos vão captar a mensagem
do funk?
DJ Marlboro - Música
não é só letra, é ritmo
também. Então quando
o gringo ouvir, por exemplo, O Rap
da Felicidade, mesmo não entendendo
que ele está cantando sobre
ser feliz, viver em paz na sua comunidade,
vai escutar aquela melodia e vai pegar
o espírito, sim.
OiLondres! - Dá para
pensar qual o futuro do funk no Brasil?
DJ Marlboro -
Acho que um dos grande problemas nas
comunidades carentes é o
tráfico de drogas aliciando
menores. Então
o funk pode ser uma saída, uma
segunda opção na vida
dos menores. Outro grande problema é que
a escolaridade está tão
ruim... Então, se o menino da
favela pensar que, mesmo sem muito
acesso à escola, pode escrever
uma música sobre
sua realidade e ganhar dinheiro com
isso, o funk pode ser a luz no fim
do túnel.
E não é só trabalho
como DJ, rapper.
Quantos empregos um baile funk não
gera? É desde segurança,
iluminador, gente que trabalha no bar.
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