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Arte & Lazer

Homens de Azul

Tudo começou na rua, em meados da década de 80, em Nova York. Três artistas carecas e pintados de azul saim pelas ruas de Manhattam gerando curiosidade, interesse e fascinação. O que era uma simples idéia de três homens se tornou um dos espetáculos mais famosos do mundo, com shows em Nova York, Los Angeles, Chicago, Berlim, e agora Londres.



O Blue Man é, antes de tudo, um mistério. Um espetáculo que envolve
vídeo, animação, pintura, música, circo, teatro. Uma colagem artística
com caráter multimidiático mas também bem simples. No final das contas, são três homens azuis mudos no palco e uma platéia fascinada. Dizer que é um espetáculo pós-moderno, por incrível que pareça, seria cair no senso comum. E de senso comum o Blue Man não tem nada. O espetáculo é único e sua experiência será também.

Confira aqui a entrevista exclusiva com os Blue Men  Kaelen e Aurelian, que fazem o show em Londres. E  veja no final como você pode concorrer a ingressos para o show.

Por Néli Pereira


OiLondres- Muita gente que vem pra Londres pensa que aqui é o lugar para se tentar algum experimento artístico, Quando o Blue Man Group começou, com três homens pintados de azul andando pelas ruas de Nova York, os criadores sabiam que o grupo poderia se tornar algo tão grande? Qual era a intenção na época?

K- Não dá pra gente dizer ao certo pois não estávamos lá, nós nos juntamos ao grupo alguns anos depois. Mas na época, a intenção era satirizar, criticar o status da arte, trazê-la para rua e ver a reação das pessoas. Não havia intenção de ser uma grande compania, como o Blue Man acabou se tornando, uma multinacional que atua em vários países. Mas a intenção era tentar alguma coisa nova, certamente.

OiLondres- Então uma idéia muito simples virou uma grande produção. Como foi a transição das ruas para o palco, se tentou manter a mesma atmosfera?

K- Eu acho que ter começado na rua foi essencial para o que o grupo se tornou e para o desenvolvimento do personagem Blue Man como ele é hoje em dia. Estar perto do público e sentir a reação dele, criar uma conexão com o público e tudo isso foi essencial para o personagem. E acho que a atmosfera foi transferida para o palco com sucesso pois o personagem é muito carismático.

A- Além disso, foi importante para juntar as pessoas para trabalhar junto, como uma equipe já que a produção envolve discussões com video makers, músicos, artistas e um número grande de pessoas está envolvida diretamente.

OiLondres- Eu sei que existem, pelo menos, sessenta Blue Mans pelo mundo. Quais são os requerimentos para se tornar um Blue Man? Que tipo de background a pessoa deve ter, artes, música, teatro, circo?

K- A maioria de nós tem algum tipo de relação com a música, mas também tem gente de teatro. Não existe nenhum tipo de requerimento específico, a não ser a altura. Você tem que ser bem alto para ser um Blue Man, e todos têm mais ou menos o mesmo tamanho. Mas não importa muito de onde você vem, contanto que tenha alguma experiência prévia com a música.

OiLondres- Existe alguma Blue Woman?

K- Existe sim, mas é mais difícil justamente por causa da questão da altura, poucas mulheres alcançam a altura necessária.

OiLondres- No show é possível identificar uma variedade grande de influências e elementos como música, video design, animação, até mesmo referência a nomes como Yves Klein, entre outros. Vocês estão cientes dessas influências, atuando como Blue Men?  O que é o Blue Man, afinal?

A- Acho que é parte do show e essas referências todas são uma grande parte de interpretar o personagem e de se interessar pelo que o personagem se interessa e no mundo dele. Eu pessoalmente fiz algumas pesquisas sobre os artistas que são evocados no show, como Yves Klein, Giacometti, Pollock, entre outros. Eu me lembro de ter ido no Moma (Museu de Arte Moderna) em Nova York enquanto estava fazendo meu treinamento. Também era parte do processo de treinamento ajudar a equipe a preparar o show, estar com o diretor no palco e ter conhecimento de tudo o que envolvia o show, não apenas do nosso personagem e entender que o show não somos só nós, mas todas as pessoas envolvidas.


OiLondres- É uma grande entidade, não é?

A- Sim, são todas essas pessoas trabalhando juntas que fazem o show e não só a gente. É ótimo ver que isso funciona, que o show depende de todos.

OiLondres - E se vocês tivessem que caracterizar, categorizar o show, o que vocês diriam que é? Uma performance?

K- É uma performance sim, uma espécie de happening porque muito do que acontece depende do público de cada dia. Não existe uma parede imaginária que nos separa do público, nós temos uma relação com ele, seja fisicamente , trazendo as pessoas para o palco e interagindo com elas ou quando estamos no palco, buscando essa conexão com o público. Não há uma separação entre o artista e o público.

A- É muito legal pra gente se sentir renovado o tempo todo e estar no palco é algo muito real, é uma experiência muito viva naquele momento. O importante sempre é estar naquele momento e explorar os sentimentos que temos no palco. Acho que as pessoas conseguem sentir isso, é muito bonito.

OiLondres - A relação entre vocês e o  público parece estar sempre em
primeiro lugar, mas vocês acreditam que por trás disso existe uma intenção artística? Digo isso porque vocês usam a arte como referência também para satirizar e criticar de alguma forma.


K-  Sim, está tudo ali. Acho que é parte da história, como falamos antes, de colocar todas as influências juntas. Era uma reação a situação da época e eles (os criadores do grupo) estavam falando dessas coisas; da arte performática do final da década de 80, do consumismo, da situação política e do isolamento em um ambiente urbano. Esses ainda são temas no espetáculo e você pode fazer essa leitura com certeza. Mas a gente volta ao objetivo maior e principal, porque essas são apenas ferramentas para ilustrar uma opinião, para jogar alguma coisa na cara da sociedade como um pequeno espelho, mas o objetivo maior é ter algum tipo de relação entre o grupo e o público e dividir uma experiência única com um grande número de pessoas que culmina no grande finale que temos no espetáculo. Esse é o objetivo. Tem muita coisa de comédia, humor, vaudeville, cinema mudo, mas são apenas ferramentas para dividir essa experiência.

OiLondres - E vocês acham que se não tivesse todo esse aparato de banda ao vivo, vídeo, tinta, todas as ferramentas que você mencionou, vocês acham  que ainda conseguiriam criar essa relação com o público?

Me parece que sim, já que este é o objetivo maior...

K- Eu acho que sim porque essa relação é o elemento constante. Esse sempre foi o objetivo independente do tipo de recurso utlizado e do tamanho da produção e do que permite que essa conexão se crie com quaisquer elementos que estejam em volta. O personagem Blue Man é capaz de falar com as pessoas de alguma forma e criar essa relação. É um personagem interessante e eu acho que ele seria capaz disso sim.


OiLondres - O aspecto musical é também bem diferente porque ao mesmo tempo é tribal e bem contemporâneo. No entanto, no final das contas, é um show de rock. Vocês acham que isso é intencional, ter um elemento de homogeneidade e coesão musical?

K- Sim, eu acho que a música é uma boa maneira de reunir todos os elementos, de englobar tudo e criar um tema único. A música é bem dinâmica durante o show, mas novamente é sobre essa experiência visceral. Não é sobre virtuosismo ou técnica, mas sobre essa relação entre músicos, artistas e performers juntos no palco tocando a mesma música toda noite, mas também se ouvindo para poder se comunicar. Ao longo do show a música é tribal e essa é uma outra maneira de dizer rock, porque o rock é visceral.


A- O que é importante também é que nós tocamos instrumentos acústicos no show, com exceção de uma parte apenas. A responsabilidade é nossa de fazer dar certo porque não tem faixas prontas. É uma experiência bem viva e não importa se é rock, jazz, punk ou jazz. Pessoalmente, eu não me importo com o estilo contanto que eu veja que os perfomers estão dando os seus corações naquela hora e fazendo o melhor que podem. Eu acho muito bom que a gente toque junto porque já tem muito playback por aí e porque faz parte da filosofia fundamental do grupo. É tão real e eu acho ótimo que fazemos dessa forma.


OiLondres - E como é para vocês, como artistas e performers, criar essa relação durante o show? É uma relação gradual, que começa analisando o território e o público em determinado espetáculo? Como é para vocês desenvolver a personalidade Blue Man e ser capaz de ter esse contato com o público tão grande que no final do show, eu quero estar lá no palco, sendo um Blue Man também.

K - É impressionante. É a experiência mais incrível.

A- Eu acho que leva tempo. Nós treinamos intensamente por oito horas por dia e eu acho que leva pelo menos um ano para fazer o espetáculo no palco.

K-  O personagem está em constante desenvolvimento.A gente estreou o show aqui em Londres e eu já tive oportunidade e o prazer de fazer o show em outras cidades e isso ajuda a manter a renovação do personagem. Quando você faz o show em uma cidade por um ano é importante encontrar uma maneira de manter o o show interessante e a repetição funciona quase como um workshop diário, de ir experimentando as coisas dentro da linha do espetáculo. E tem sido um worshop incrível de cinco anos para mim e hoje eu entendo como me comunicar, como ser específico em criar essa experiência única.

A- Para mim levou tempo para entender a parte técnica de nós, performers e de me expressar e criar conexão com o personsagem e com o público. Eu me lembro que no meu primeiro espetáculo, eu mal conseguia ver por causa da luz e da maquiagem escorrendo nos meus olhos. Eu acho que fiz bem, porque continuo aqui (risos), mas é difícil. Depois de um tempo, quando a gente se sente mais confortável com o personagem é que dá para explorar e tentar se renovar todas as noites. É gradual, eu ainda tenho algumas revelações sobre o personagem as vezes, me sinto mais próximo dele e compreendo melhor. É muito legal sentir que está se tornando um Blue Man melhor.

OiLondres - E é cansativo, já que vocês fazem o show quase todos os
dias? Requer muito esforço físico?


K- Pode ser muito cansativo. O que ajuda é se manter em forma, e sempre ativo, fazendo outras coisas fora do espetáculo porque daí não é um choque corporal tão grande já que a gente sua muito no palco e tem as luzes, a maquiagem, e a restrição do figurino. Mas eu acho que o que pode ser mais exaustivo do que o cansaço físico é o cansaço mental; Quando você está completamente dentro do personagem, comprometido com ele, pode te sugar um pouco durante o espetáculo. Antes do show eu sinto, antes de mais nada, a adrenalina no corpo. É bem cansativo se você se compromete com o show durante as duas horas.

A- É uma energia constante o tempo tempo. Não tem descanso durante o show, a não ser uns dois segundos que podemos ficar no backstage descansando os braços. É um elástico que está sempre tenso. O personagem tem tanta vida e nunca descansa, sempre tem que estar atento ao que está em volta dele. Não tem descanso no palco e pode ser bem cansativo.

OiLondres - Para finalizar eu queria saber com quem vocês acham que se comunicam? Porque no show tem um público diverso, gente mais nova e mais idosa e todo mundo se diverte. Vocês acham que o Blue Man é entretenimento para todas as idades?

K-  Eu acho que sim porque o espetáculo não é construído para um grupo específico. O personagem tem algo de muito humano, talvez porque não fala nada e você é capaz de dar significados diferentes para cada coisa e isso se torna mais subjetivo e pessoal.

A- Isso mesmo, você pode criar a sua própria história sobre o show. A gente sempre fala sobre o Blue Man e sobre o personagem, é ummistério para nós também. Acho que é isso que nos mantém fazendo o show.



Blue Man Group
Temporada de 12 de dezembro até 26 de março
New London Theatre
Drury Lane

www.blueman.com
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